
Francisco de Assis Melo*
O turismo rural é um segmento que vem crescendo muito nos últimos tempos. Com ele valorizam-se as comunidades através da geração de trabalho e renda obtida a partir das potencialidades tais como a gastronomia, o artesanato, as manifestações culturais. O patrimônio natural representado pela paisagem ganha novos contornos. Assim as serras, baixios, grutas, açudes, cachoeiras, aspectos arquitetônicos, tudo passa a ser visto e contemplado a partir de um novo olhar.
Imagine um cenário que além de apresentar um patrimônio rico e diversificado, ainda possui um componente histórico-cultural por estar ligado à passagem da Coluna Prestes, como é o caso de treze municípios do sertão paraibano.
Por razões diversas, os paraibanos sabem pouco sobre essa famosa Coluna e muito menos ainda sobre a sua passagem pelo sertão da Paraíba. Trata-se de uma marcha histórica, composta por cerca de 1.500 componentes, em sua maioria civis, comandada por militares, sob a liderança de Luís Carlos Prestes. Percorreu vinte e cinco mil quilômetros, partindo do Rio Grande do Sul, passando pelo Nordeste e desfazendo-se na Bolívia após dois anos e três meses. O objetivo dos “revoltosos” – assim denominados pelo povo – era a derrubada do presidente Artur Bernardes – e a efetivação de reformas sociais e políticas no País.
Vindo pelo Rio Grande do Norte, após os combates no Ceará, a Coluna entra na Paraíba pelo município de Uiraúna, antes chamada Belém - antigo povoado pertencente a São João do Rio do Peixe. Seguindo por vales entrecortados de riachos de águas cristalinas e pastagens verdejantes – estratégicas para a manutenção dos cavalos que transportavam os combatentes - a Coluna passa pelos municípios de Vieirópolis, Lastro, Santa Cruz e São Francisco, antigos povoados hoje desmembrados do município de Sousa. Dali, sempre evitando estradas principais e portanto, percorrendo trilhas pela caatinga fechada, a Coluna passa a três léguas de Pombal, em direção a Coremas e Piancó, quando acampam em três fazendas/engenhos onde hoje é o leito do açude de Coremas.
Em seguida a Coluna começa a entrar em Pìancó, quando um sargento revoltoso é atingido por um tiro que partiu de um piancoense pertencente a uma tropa comandada pelo padre e deputado Aristides, que tinha decidido oferecer resistência aos revolucionários de Prestes. Na condição de rendido, o líder religioso foi fuzilado juntamente com os seus acompanhantes também aprisionados, dentre eles o Prefeito e um filho seu. Estava vingada a morte de Laudelino.
Refeita dos embates em terras piancoenses, a Coluna sobe a serra do Mucamo, à época pertencente a Princesa Isabel, hoje território tavarense e finalmente entra para o estado de Pernambuco, em direção à Bahia...
A Coluna Prestes assemelha-se às grandes marchas humanas registradas na história. No livro “A Paraíba na Trilha da Coluna Prestes” ( no prelo e em busca de um mecenas), eu trato com detalhes dessa histórica e trágica passagem da “Coluna Invicta” como foi cognominada por Jorge Amado.
Resta-nos reconstruir o cenário percorrido pela Coluna Prestes a partir da mobilização e sensibilização das comunidades por onde passaram as tropas de revoltosos, bem como fazer um inventário do acervo patrimonial e cultural de cada município que integra a trilha.
Um grande desafio se dá no sentido de organizar uma governança para gerir o que estamos chamando de Projeto Executivo, cujas ações deverão constar de; a) diagnóstico das comunidades envolvidas na trilha; b) estratégias de ação; c) infraestrutura atual/projetada; d) marketing; e) suporte didático-pedagógico; f) orçamento; g) parcerias, etc.
Até agora houve articulação entre o Sebrae, o Projeto Cooperar, a PBTUR, a Secretaria de Cultura do Estado, as Prefeituras dos municípios da trilha (neste caso, em gestões anteriores), mas o fato é que nenhum desses atores teve a iniciativa de assumir a condução desse processo de formatação de um projeto a partir das potencialidades levantadas pelo Projeto Cooperar no sentido da prospecção da trilha cujo trabalho tivemos a honra de coordenar na qualidade de consultor. Outro dado relevante é que todo o trajeto percorrido encontra-se georeferenciado, também por iniciativa do Cooperar, constando de trinta e sete marcos levantados através de GPS, distribuídos em todo o percurso percorrido pelos combatentes da Coluna Prestes, em nosso Estado.
Um projeto dessa envergadura certamente valorizará a Agricultura Familiar de base agroecológica, além de estimular os negócios não agrícolas como restaurantes, pousadas, artesanato, cultura popular e tantas outras manifestações - conteúdos de um projeto de turismo cultural - próprias de um povo, cujos antepassados fizeram parte, - como expectadores - de um dos mais significativos momentos da história do Brasil. A Paraíba precisa explorar essa potencialidade altamente compatível com o seu projeto de desenvolvimento sustentável. Por que não largar na frente?
*Francisco de Assis Melo é Engenheiro Agrônomo e consultor do Projeto Cooperar.Maio/2013
Fonte: Espaço Ecológico
18.05.2013